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Eneida de Moraes e as práticas alimentares.

Eu conheci Eneida de Moraes ainda ano colégio, quando aluna do Colégio do Carmo, lá na Cidade Velha, no Ensino Médio. Tínhamos uma professora maravilhosa de literatura, a Auxiliadora, nós a chamávamos de Auxi. Quando me recordo desta época penso na imensidão que nos tornamos em estarmos do lado dos bons "é junto dos bão que a gente fica mió” não é!? Auxiliadora, foi quem me apresentou Eneida de Moraes, em um texto sobre a época que ela esteve presa política e sobre suas companheiras.



Eu lembro que passei longos dias pensando no destino daquelas mulheres. Nunca mais esqueci de Eneida.

Nunca esqueci daquelas "Vinte e cinco mulheres prêsas políticas numa sala (...) Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas". (1) Nunca me esqueci também da professora que nos ensinava sobre literatura, mas, também sobre memórias, política e História, essa última com H bem maiúscula mesmo. Nunca me esqueci das aulas da Auxiliadora e que já naquela época me ensinou sobre o magistério também.

Depois, fui atrás de outros escritos de Eneida de Moraes e me encantei ainda mais. Aruanda e Banho de Cheiro são riquezas inigualáveis. A primeira publicada pela primeira vez em 1957, a segunda em 1962. Não há quem não conheça Eneida de Moraes, por estas paragens e nem deveria haver. Em Banho de Cheiro ela destina um capítulo a cidade de Belém, capital do Pará e de forma tão apaixonante fala da cultura alimentar local. Fala das mudanças e permanências na cidade que ela não via depois de mais de 15 anos longe. Segundo Eneida, "Minha cidade de Belém do Grão-Pará: as mangueiras, as frutas, ah as nossas frutas? No inverno: pupunha, bacuri, taperebá, cupuaçu, muruci, uxi, umari, abios, araçás, maracujás, tantas e tantas outras. As comidas: pato no tucupi, casquinhos de caranguejo, casquinhos de muçuã, tartaruga preparada de muitas maneiras, maniçoba; sempre dominando o tucupi, líquido amarelo claro que a mandioca nos dá. A comida mais requintada do Brasil: é a mais saborosa. Nas ruas, em mesas armadas, com grandes panelas muito limpas sempre envoltas em grandes toalhas, caboclas vendem tacacá. É gostoso tomá-lo fumegante em cuias, com goma e camarões boiando entre as fôlhas de jambu". (2)



A Belém, de Eneida de Moraes, é a Belém dos sabores tão caros e tão identitários a qualquer um. Eneida estava certa de quê "Tudo nesta cidade onde nasci é poderosa, eloqüente(...) Paisagens, personagens, ocorrências. Tanta coisa para contar dela (...)Que importam os limites do Estado do Pará se para mim, ao norte, sul, leste, oeste, êle é todo limitado pelo meu grande amor? (3)

Belém do Pará, é realmente um amor pra quem nasce aqui e para muitos que a conhecem e se apaixonam de vez. Na fotografia, o Ver-o-Péso, que segundo a autora "manchado de velas de tôdas as cores, com suas grandes barcaças que trazem, um dos mais diversos pontos do Estado, peixe e frutas para a vida da cidade". (4)

É sobre isso, como a cultura alimentar da cidade de Belém é parte importante da vida da cidade, vida que pulsa em sabores, cores e memórias gustativas.

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💬 E você morador ou não, qual teu sabor preferido de Belém do Grão-Pará?

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📚✍🏽 Referências.

📸 Barcos atracados no cais do Ver-o-Peso. ID: 9404; Local: Belém (PA); Ano: s.d.

Amazônia; Barcos; Belém (PA); Portos.

📸 Barcos atracados no cais do Ver-o-Péso. ID: 9403; Belém (PA); Ano: s.d. In:

https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=49404 🔖Qualquer óbice em relação as imagens por favor nos avisar. (1) (2) Moraes, Eneida de. ARUANDA/ banho de Cheiro. Belém: SECULT;FCPTN, 1989, p. 218-219.

(3)(4) Moraes, op. cit., p. 218; 220.

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