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Alimentação em Madame Bovary.



Vocês já devem ter observado como a literatura nos permite perceber a Gastronomia e as práticas alimentares em voga naquele espaço de tempo a que o livro faz referência? A literatura é magistral em nos apresentar sabores sejam eles vividos na memória dos personagens ou vividos na "realidade" do livro através dos almoços, jantares e as pequenas festas ou reuniões que ao longo do livro encontramos, não é mesmo!? Como nos aponta Maria Alzira Seixo: "(...)a capacidade da Literatura em representar, de modo rico e multiforme, a Alimentação, a Culinária e a Gastronomia, enquanto aspectos da vida quotidiana normalizada ou excepcional, de regiões oucosmopolita, indo da prática humana mais rasteira (no dia-a-dia de quem nem pensa sobre o que come) ao nível mais elaborado da confecção do texto como alimento supremo, do corpo ou até do espírito". (1) A Alimentação assim como parte importante da vida cotidiana torna sua presença fundamental na literatura. Nesse sentido, Seixo nos diz ainda que: "A representação da Gastronomia na Literatura é muito frequente. Remonta à Antiguidade, onde encontramos um poema do grego Arquestrato sobre a arte culinária, do séc. IV A.C., e, já no início da nossa era, surge em Roma, no romance Satiricon, de Petrónio, onde se destaca o episódio conhecido como a Cena Trimalquionis («O Jantar de Trimalquião»), que descreve um banquete".(2) Pois bem, assim quero convidar você para sentar na mesa do daquiloquesecome essa semana e com uma boa xícara de café/chá fumegante "passear" por obras da Literatura que nos trazem práticas alimentares.  Vamos lá???

Começamos a semana com o Clássico de Gustave Flaubert, Madame Bovary, inicialmente publicado em capítulos no ano de 1856, na Revue de Paris, teve a publicação suspensa por queixas de leitores, seguida por ação judicial sob alegação de que o Livro era um atentado a moralidade pública. Flaubert, só consegue publicar a obra na íntegra em 1857, após ganhar o processo. Então, o romance conta a história da jovem Emma Bovary, esposa do médico Charles que vivendo num casamento "sem graça", grandes emoções ou ainda uma paixão ardente como ela imaginava que seria, pelas leituras dos livros que havia feito, ela passa a ser infiel ao marido e a gastar mais dinheiro do que podia para tentar dar mais alegria e cor a sua vida. Madame Bovary tornou-se um clássico, que segundo Henry James: "tem uma perfeição que não apenas a diferencia, mas a torna quase solitária".(3) O livro é permeado de cenas que envolvem a comida e suas práticas. Na ilustração, de 1905, para uma edição em inglês é possível ver um desses momentos. Emma e Charles em volta da mesa, num jantar? É possível visualizar também num aparador ao fim da cena louças em porcelana e itens de mesa, a ilustração retrata um pouco do que era a vida de Emma, envolta em uma certa monotonia. Em outra parte do livro a cena se passa em torno da mesa: "Ele tirava o casaco, para jantar mais à vontade.  Falava de todas as pessoas que tinha encontrado, uma por uma, falava sobre as aldeias onde havia estado,  sobre as receitas que tinha dado e, satisfeito consigo mesmo, comia os restos de carne, descascava o seu queijo, comia a sua maçã,  esvaziada a garrafa, depois ia para a cama, deitava-se de costas e roncava".(4) Em outra passagem, o autor lembra como a mãe de Charles, ainda estudante de medicina "enviava, pelo mensageiro, um pedaço de vitela assada no forno,  que ele almoçava". E sobre os gostos do pai Rouault nos diz que: "Amava cidra forte, pernas de Carneiro quase cruas, glorias bem batidas".(5) To be continued...

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💬 E você?Tem uma cena favorita de Madame Bovary que apareça as práticas alimentares?

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📚✍🏽 Referências.

✍🏽 Ilustração para edição em inglês de 1905. (1)(2) Maria Alzira Seixo. Os sabores da literatura ou: como a Gastronomia se apoia nos modos de dizer.(Universidade de Lisboa), ABRIL – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 6, n° 12, abril de 2014. p.3,4.(3) James, Henry (1914). Notas sobre romancistas. Nova York: Charles Scribner's Sons. p. 80.

(4)(5) Flaubert, Gustave. Madame Bovary.  Trad: Herculano Villas-Boas. São Paulo: Martin Claret, 2014. Edição especial. p. 29, 45,65.

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